O ano da
morte de Ricardo Reis
Foi no passado dia 27 de abril, pelas 9h e 30
minutos, na sala 106 da Escola Secundária Pinheiro e Rosa, que a palestra sobre
o romance O ano da morte de Ricardo Reis
teve lugar. Contou com a dinamização da professora Carina Infante do Carmo,
docente de Literatura e Cultura Portuguesa da Faculdade de Ciências Humanas e
Sociais da Universidade do Algarve e participaram no evento todos os alunos do
12º Ano (turmas A, B,C e D) e respetivas professoras. Esta iniciativa inscreve-se
numa lógica de intercomunicação entre o
ensino secundário e a Universidade do Algarve, uma forma de abrir a comunidade
educativa ao mundo exterior e a escolha do tema surge como resposta à proposta
da Universidade que vem ao encontro de um conteúdo de estudo obrigatório na
disciplina de português, conforme estipulado no novo programa institucional que entrou em vigor no ano letivo de 2015-2016.A
requisição desta palestra representou, ainda, uma forma de concretizar uma
atividade inserta no plano de atividades da biblioteca escolar em articulação
com o departamento de português.
O que dizem os alunos sobre a palestra? Eis
algumas opiniões
«Nesta sessão,
foram abordados
vários assuntos acerca da obra em referência, tendo sido dado ênfase principalmente à sua contextualização
histórica. O romance foi publicado no ano de 1984, num período pós-salazarista,
e retrata o ano de 1936, uma época em que Portugal se encontrava acorrentado e
subjugado ao regime repressivo que vigorava e aparentava ser infindável.
Como
é comum em quase todas as obras escritas pelo autor em questão, a história é
narrada de uma forma bastante peculiar, transgressora no que se refere à
construção dos diálogos e, naturalmente, no uso da pontuação. O narrador assume
um papel igualmente diverso (plurivocal) e é curioso observar o juízo crítico
que percorre todo o texto.
Várias são as alusões, também, ao longo da
obra a outros escritores: Cesário Verde, com o deambulismo pelas ruas de Lisboa,
Luís de Camões, em diversas situações, como é exemplo a frase que introduz a
obra: “Aqui onde o mar se acaba e a terra principia”, um virar ao contrário do
verso de Os Lusíadas: “Onde a terra
acaba e o mar começa”. Em Camões, o movimento é da terra para o mar; no livro
de Saramago, temos Ricardo Reis a regressar a Portugal por mar.
Toda a ideia de criar uma obra tão
esplendorosa surge como reação de Saramago a um verso escrito por Ricardo Reis,
heterónimo de Fernando Pessoa: “sábio é o que se contenta com o espetáculo do
mundo”. No entanto, coloquemos nós mesmos a questão que terá ficado retida na
memória e que tanto terá dado que refletir acerca da condição humana a este autor: será tão prudente assim
que nos sintamos satisfeitos com os acontecimentos que a nós nos são puramente
exteriores, sem que nos sacrifiquemos em busca de uma felicidade pessoal?
Parece-me, de facto, que a resposta não é nada mais, nada menos, que um “não”. E
é esse o principal objetivo do escritor: não se contentar com o espetáculo do
mundo e denunciá-lo através da Literatura.
Estou convicta
de que foi um dos tempos horários mais proveitosos para este público estudantil.»
Cláudia Pinheiro - 12º
«Esta palestra teve como objetivo dar a conhecer o romance de José
Saramago, intitulado O Ano da Morte de
Ricardo Reis, publicado em 1984. Incidiu particularmente sobre o tempo
histórico e os acontecimentos políticos que constituem a ação do romance que
decorre em 1935 e em 1936.
A palestrante mostrou diferentes imagens, como, por exemplo, uma sobre a
Exposição do Mundo Português, que ocorreu em 1940, e cujo objetivo foi comemorar
o oitavo centenário da fundação de Portugal (1140).Esta exposição atraiu cerca
de três milhões de visitantes.
A figura de Salazar e as características do seu tempo ( de miséria, exemplificado no «bodo», que consistia num ato de
caridade em que eram distribuídos alimentos para os mais pobres) ;
analfabetismo; as diferentes vias de propaganda ) foram aspetos realçados com grande pormenor durante a sessão.
Gostei muito da palestra, pois o discurso da professora Carina Infante
do Carmo cativou a minha atenção, foi uma sessão muito enriquecedora acerca do
livro que estamos a estudar, principalmente a nível do conhecimento geral da
História de Portugal, o tempo ditatorial e as condições de vida existentes na
época do Estado Novo.»
Robert
-12º C
«A palestra iniciou-se com uma breve
apresentação das diversas obras de José Saramago, de entre as quais se destacou
O Memorial do Convento, romance
estudado no programa antigo de português. Em seguida, foram abordados aspetos
específicos da obra obrigatória no presente ano letivo O Ano da Morte de Ricardo Reis, tais como: a pontuação, o tom
oralizante, a ditadura salazarista (o cartaz de propaganda do regime que se
apresenta na imagem) a PVDE, etc.
A apresentação terminou com a leitura de alguns excertos muito revelantes do romance. A sessão teve um
carácter bastante didático e foi importante para a aquisição de boas
informações relativas ao momento político em que a ação se centra.»
Gabriela Panuta – 12º B
«A sessão sobre o romance saramaguiano consistiu numa
abordagem mais intensiva sobre o tempo histórico, aspeto que, na minha opinião,
foi bastante positivo, uma vez que, antes da palestra, tinha conhecimentos
reduzidos acerca da política e do tempo salazarista em Portugal e, após o
encontro, fui capaz de me contextualizar: regime salazarista de limites e
restrições intensivas, PVDE criada com o objetivo de censurar qualquer ato
contra o governo; o nosso país vizinho, Espanha, em iminente guerra civil,
propaganda salazarista, criação da Mocidade Portuguesa. Todos estes tópicos foram
abordados com precisão e ilustrados com imagens adequadas apresentadas pela
palestrante. A atuação da PVDE está espelhada na obra e, para o comprovar, a
professora Carina referiu um passo da ação em que Ricardo Reis foi chamado ao posto pela PVDE para um interrogatório por
ser suspeita a sua chegada a Portugal. Por fim,
a recomendação feita sobre a forma como se deve proceder à leitura do
texto ,atribuindo tons diferentes a personagens diferentes e a fazer as devidas
pausas entre as falas foi, para mim, outro aspeto importante.»
Catarina Barbosa -12º B
«Apesar da informação importante oferecida nesta
palestra, penso que foi dado um grande peso ao contexto histórico no qual a
obra se enquadra. Outros aspetos relevantes sobre as personagens da ficção e o
seu papel na ação teriam sido igualmente
benéficos e a palestra teria sido ainda mais positiva»
Sofia Marcos – 12º B
«Nesta
palestra, a contextualização histórica foi claramente destacada, dando, assim,
menos relevância ao conteúdo da obra»
Alice – 12º B
Em jeito de conclusão, o balanço pode ser considerado
positivo e esta iniciativa contribuiu seguramente para mais um momento de
reflexão sobre o papel interventivo que a literatura pode, tem assumido e
assume na sociedade. Denunciar os males sociais para os corrigir é a função de
qualquer cidadão consciente e, em particular, aqueles que fazem da escrita a
sua arma de combate.

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